TIQUETAQUE, AR
Carrego o tempo no meu pulso
E ele me dispara em seu impulso
Me acelera ao ponto de esquecer
Que tempo não se pode perder
O que se foi não se faz mundo
Toda essa velocidade em tudo
E essa sede vã pelo absoluto
Pedem os ternos calmos passos
Que nos esvaziam de idos rasos
Com paraísos mais profundos
Preciso mesmo é desacelerar
Ver a paisagem da vida, seu mar
Gozar cada uma das subidas
Entender todas úteis descidas
Em câmera lenta me filmar
O tiquetaquear do tempo
Nunca deixa de assombrar
Aquele que pensa que viver
É a plena arte de acumular
Para os que vivem devagar
Que se apaixonam por seus dias
O tiquetaque é só o tilintar
Do eterno brinde que é sua vida
Preciso mesmo é desacelerar
Ver a paisagem da vida, seu mar
Gozar cada uma das subidas
Entender todas úteis descidas
Em câmera lenta me filmar
Preciso mesmo é entender
Que o tempo que eu vou ver
Não vai passar de grão de areia
Na praia sideral das estrelas
Onde um castelo eu vou fazer
O tiquetaquear do tempo
Nunca deixa de assombrar
Aquele que pensa que viver
É a plena arte de acumular
Para os que vivem devagar
Que se apaixonam por seus dias
O tiquetaque é só o tilintar
Do eterno brinde que é sua vida
INSIGHT PÓSTUMO
Escrito há alguns anos para Clarice Lispector
Transgredi a cela da vida contingente.
Vaguei no encanto e não me perdi.
Vi no mundo um caminhar penitente,
A multicolor algema do agora e aqui
Vivi umas vidas em meu cárcere de carne,
Todas escritas sob meu olhar decumbente.
Era a magia léxica minha ígnea arte,
O sopro de vida sobre a morte eminente.
E agora que sou um corpo sem corpo,
A rima fugaz de uma poesia já lida,
Embora seja um livre imorredouro
No etéreo passeio sem volta nem ida,
Se um dia pensei que liberdade era pouco,
Apelido o que sonhava com o nome de vida.